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Ex-Paciente escreve carta em agradecimento a equipe médica


18/04/2011

Caras médicas:

Já faz um tempo que tenho vontade de transmitir a vocês minha gratidão. Resolvi usar as palavras e não mais adiar, já que em breve estarei longe.
Pois bem, eu pus os pés no ceon e acho que nunca os tirei. Acredito que não seria possível encontrar pessoas melhores pra cuidar de mim, e eu digo cuidar em um sentido muito mais amplo do que simplesmente tratar uma doença física, afinal comprimidos aliviam a dor, mas só o amor alivia o sofrimento. Falo individualmente, mas creio que meu sentimento pode ser generalizado. Vocês devem saber o quanto cada paciente necessita desses cuidados tão preciosos, dessa atenção, que vai além da obrigação... Eu diria até desse amor, que se não fosse ele, talvez eu não estivesse viva hoje.
Fui parar no ceon num momento que o que eu menos queria era lutar pela minha sobrevivência, até porque esses paradoxos estranhos fazem parte da vida mesmo, ou melhor, eles são a vida. E, segundo minha psicóloga da época, eu não teria terminado o tratamento se não fosse por vocês. Obrigada por não desistirem de mim quando até eu desistira. Eu não conseguia dizer não quando Dra Karina vinha com toda sua paciência me pedir pra fazer! Outras vezes esse foi o papel de Dra Marina, que por sinal, como eu, vi entrar de jeito e se transformar em outro completamente diferente. Lembro a Dra Marina do começo: sempre séria e até meio chata! Felizmente logo mostrou esse doce de pessoa que ela é na essência e não sei por que escondia. Quando eu estava mais bem adaptada à situação e achando que não podia ser minha dor mais aliviada do que era, me aparece Dra Anna Paula e Dra Adriana e pronto: tudo ficou completo.
Há quatro anos eu estava pondo meus pés, há quatro anos eu percebia um brilho diferente no mundo e nos olhos das pessoas, mas me parece que foi ontem. Tenho em mim recordações muito vivas e vou guardá-las para sempre. Basta me desligar um pouco e tudo vem numa enorme onda me inundando: as cabecinhas peladas mais lindas pelos corredores, os cheiros, os choros, crianças tendo a infância levada e envelhecendo por dentro, os olhares falando (quase gritando), mais do que qualquer palavra poderia fazer, sobre o desespero, cansaço e medo; apesar disso, pessoas sorrindo, fazendo da amarga vida uma pequena diversão; comecei a admirar a linha tênue que separa a vida e a morte. E vocês: cuidando de seres humanos, tratando pessoas e não doenças.
Talvez por isso eu tenha me apaixonado pela oncologia pediátrica, me apaixonei pelo amor e doação que presenciei. O cuidado de uns e a carência de outros, como se fosse a vida um grande quebra-cabeça, onde uma peça se encaixa na outra perfeitamente.
Quando eu crescer quero ser igual a vocês.

Aline

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